Sete dias da semana sem medo da notícia

Hilária, o nome dela
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No elevador, uma velhinha pergunta quantos vãos de escadas faltam para chegar em casa. Uma criancinha responde que se vão os dentes, mas ficam as palavras. Não era uma criancinha, era um homem velho com tiradas juvenis. Ao ouvir a resposta, a velhinha balbucia para si: “Palavras ao vento não me importam, que você morra ao chegar à sua porta”. Ela era bruxa. O homem morreu. A velhinha sempre fazia a mesma pergunta no elevador. Ela gostava de escutar piada ruim.







Rei na barriga
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O sol se pôs no umbigo.







Dia de poesia
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E nesta coluna, em que o leitor encontra mais prosa do que qualquer outra coisa, hoje é dia de poesia, é dia de poema.

Anos atrás, escrevia mais poesia do que prosa. Chego a lembrar do tempo em que escrevia poema full time — é a mais pura verdade, e eu não havia sido tragado pelo jornalismo.

Hoje é dia de lembrar o que fui.

ninguém viu 

trabalho
a plenos
pulmões
o que me
incomoda:
a abundância do ar lá fora







Aquilo ali
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Os olhos flertaram com a boca. Ela se desculpou. Caso quisesse saber sobre o mundo, o buraco era mais embaixo.







Depois de pintar o sete
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As cores queriam uma canja. Amarelo e vermelho foram atrás. Só deu laranja.







Burla
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Parei de tomar remédio. Vou passar essa doença que acabará com as farmácias.







Carla Macedo ou fome de mamãe
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Barriga redonda, grande, lustrosa. Carla sente desejo de comer as coisas mais estranhas, algumas até perigosas: feijão com camarão, banana com macarrão, leite com manga, café com água gelada. Ela sai andando lentamente pela rua, vendo crianças que um dia irá parir. Carla chega perto de uma menina de cinco anos — se muito — e pede um pouco de pipoca. A garota dá sem problema, só franze o rosto quando Carla mete a mão no saco para pegar o segundo bocado. Sai com a boca cheia, balbuciando algo que não dá para entender. A criança pensa que existe muita gente mal educada no mundo, mas que é preciso ter paciência. “Pelo menos é o que mamãe sempre diz”, resigna-se a garotinha, com o rosto, agora, desanuviado.

Carla continua o trajeto, sempre cheia de desejos, disposta a saciá-los sem nenhum peso na consciência. Ao passar por crianças solitárias ou em grupo, trata logo de mexer com elas, tentando intuir como seria a reação de suas filhas nessas situações. Pega uma bala, estoura um balão, chuta uma bola bem para longe, coloca o pé para que alguma das traquinas caia. Está disposta a ir às últimas consequências.

Em um parquinho na praça, pega o pirulito de uma garotinha desprotegida. A coitada começa a chorar. “Vem cá, minha filha, você está pensando que é quem? Que está mexendo com filha de maria-niguém? Ela tem mãe, viu? E eu vi o que você fez. Desse tamanhão, com esse barrigão, implicando com uma criança! Se enxerga, mulher”, diz a mãe da menina que teve o pirulito roubado por Carla.

A trituradora de comida, a esgalamida, a glutona, a comilona, dá de ombros, joga o pirulito no chão e segue caminho. Nem parece estar com a barriga já pela boca. A respiração ofegante mostra isso, mas ela segue adiante, quer chegar a algum lugar. Enquanto não atraca no derradeiro destino, segue implicando com meninas das mais diferentes idades, classes sociais — acompanhadas ou não de adultos.

As pessoas recebem os descalabros de Carla com espanto, com descrença, com uma negação tremenda que as deixam imóveis, sem ação. Em nenhum momento a Polícia é chamada, sequer um guarda municipal. Nada, necas, coisa nenhuma. Carla reina. Parece filha única em ataque de carência, ferindo todos os familiares mais próximos. Insuportável, intragável, ligeiramente paranoica.

Carla segue indiferente, pratica mais alguns desatinos. Chega a uma loja. “Hospital de brinquedos”, lê-se. Ela entra sem sutileza e interpela a balconista: “Vim pegar minha filha”. A balconista sai e volta com uma meninazinha de seis meses, no máximo, nos braços. Bico na boca, macacãozinho rosa, silenciosa.

Carla puxa a bebezinha dos braços da balconista, coloca nos seus, deixa a loja batendo a porta: emburrada, bronca, estúpida. Faz o caminho de volta para casa mais serena. Abre a porta, não tem ninguém.

Carla despe a bebezinha, cheira a barriga fofinha e vai futucando o umbigo daquela coisinha até fazer um buraco. Primeiro coloca uma bonequinha pequena que, ao passar, alarga o rombo. E assim coloca uma maior, outra um pouco maior, outra maior ainda, como se fosse uma bonequinha russa: matriosca.

Quanto mais bonecas de tamanhos variados coloca dentro da bebê, mais ela incha. Até que a barriga se desfaz, descostura, saindo tudo o que estava dentro, com direito às estopas de preenchimento. Carla rasga pela quarta vez, em menos de um mês, a sua boneca “Meu Bebê”, da Estrela .

Carla Macedo tem dez anos e sonha que sua filha seja mãe de 11 gêmeos, igual à indiana do WhatsApp. Ela não sabe que a notícia é falsa. Carla é filha única e está muito acima do peso.







A primeira noite de um H
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Excitado, em frente ao espelho, perguntava-se o que faria com aquela haste. Broxou. h.







Caneta sem tinta
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Tinha o sangue azul, mas instável, às vezes nobre, às vezes vulgar, dependendo de quem a usasse. Uma caneta esferográfica azul. De tanto escrever, ficou sem tinta. É da marca BIC, aquela com o furinho no corpo, em que se encaixa a ponta da lapiseira e se faz uma hélice. “Isso é besteira”, diria enquanto tinha tinta. Naquela época, era dada a pensamentos profundos, sérios. Nada de frivolidades.

Mas, agora, que está sem tinta, sente-se mais leve, mais diáfana — transparente até. Para não ficar sem ter o que fazer, começou a pensar. Acredita que isso é uma forma de escrever em silêncio, de escrever o silêncio. Não precisa mais ser empunhada, não precisa ser mais esfregada, tratada com descaso. Não precisa mais ser meio. Ela é fim, finalmente. Fim em si. Sem cobrança, sem tensão, sem falta de criatividade — não dela, mas do escriba.

Ela está plena, mesmo vazia. Consegue entender o que não entendia, porque lhe faltava reflexão. Tudo era ação, tudo era para ontem. Chegava determinado momento em que nem sabia mais o que fazia, agia no automático.

Começou a refletir mais quando passou da meia vida, quando mais da metade de seu sangue-mente-tripas-coração-e-o-escambau já tinha escorrido papel afora. Sabia que não demoraria muito para parar de ser usada. Que alívio, que angústia. Teria de se adaptar a uma nova vida, a um novo modo de ver a vida, não mais de cara para o branco, para o nada, para o incriado. Não seria mais colocada na boca, nem no nariz, nem na orelha. Não seria mais equilibrada entre o lábio superior e a parte de baixo do nariz, num beicinho cômico do humano. Não ficaria mais dentro do bolso refletindo se suicidava ou não. Infelizmente, muitas de suas conhecidas e amigas puseram fim à vida. “Ato impensado, puro impulso”, lamentava à época quando dos estouros das canetas dentro dos bolsos. Era uma sujeira difícil de ver.

Agora, estava leve, mas trancada numa gaveta, esquecida lá no fundo. “Isso dá um pouco de angústia. Na verdade, me angustia muito, não serei hipócrita, não tenho mais idade para isso”, pensava com seu furo. Não tinha mais tampa de cima, nem a rolhinha de baixo. Ela tinha saudade de ser usada, de se sentir útil para si, para alguém. Sempre foi trabalhadora, até altruísta demais. As amigas diziam que ela pensava primeiro nos outros, depois nela.

A gaveta era outro momento: chato, nostálgico, arrastado. Só não acreditava que infinito, porque não cria na eternidade. Muitas vezes havia visto canetas próximas e até humanos sendo destruídos sem a mínima explicação.

Enquanto era deixada ali, melhor mesmo, dizia para si, era pensar, tentar dar sentido para aquilo tudo. Quanto escreveu, borrou, rodou por aí? Quanto se sentiu importante, sabida, influente – em muitos casos dissimulada – sem ser?

“Então era isso, refletir é criar sentido para as coisas. Por isso que quem me usava era tão angustiado, desligado, com a cabeça em todo lugar e, também, em nenhum. Coitados. E eu adorava brincar com eles, falhar bem na hora daquela ideia rápida. Ser sacudida, xingada, me contendo para não me borrar de rir. E quando resolvia ser gaga? Repetia sílabas, palavras a esmo. Ou comia letras. Ou mesmo – me perdoem, sinceramente, me perdoem, brincadeira tem hora – trocava letras, para aqueles empertigados saberem que nem só de ideias se faz um bom texto. A cara deles quando viam uma palavra escrita errada, pondo em xeque seu conhecimento da língua, era impagável. Para se provarem, escreviam tudo de novo, muitas vezes novos textos. E com isso, lá se ia mais e mais tinta. Fui burra, encurtei a vida com essas brincadeiras. Estou aqui vazia, cheia de ideias, mas não consigo materializá-las. Se eu tivesse cheia de tinta, iria conseguir ou continuaria só fazendo coisa para os outros? Provavelmente, só para os outros”, pensou num jorro só a caneta sem tinta.

Translúcida, inerte, jogada insepulta no fundo da gaveta. Quem a visse assim, diria que a caneta sem tinta estava morta.







Incredible sound system
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Perdi o controle remoto do coração, o volume está bem alto. Os vizinhos não sabem se chamam o síndico ou se choram ao meu lado.