Sete dias da semana sem medo da notícia

Frases de efeito
query_builder

Porque tem hora que a gente só quer causar uma boa impressão nos cérebros dos amigos.

* Depois do sétimo dia, na pindaíba, Deus criou o cartão de crédito e disse: faça-se a dívida. ‪

* Com o orçamento comprometido, finalmente pôde pagar pra ver.

* Toda tomada que se preze tem dois polos: o que te deixa numa fria (presunto) e o que te deixa tostado (isso, quando o cheiro é de queimado).

* Tenho um dicionário com mais de 200 mil palavras, e uma única gravura: está na letra G.

* Ave de rapina é aquela raposa velha num jatinho.







Texto inédito
query_builder

Mas estas palavras já não estavam todas no dicionário?







Esses animais
query_builder

Escrevi, dia desses, uma série de textos curtos chamada “Esses animais”. Não sou Esopo, o mestre da fábula, mas dou meus coices. Abaixo, uma seleção dessas miniaturas.

Esses animais #14
Ser porco capitalista não é nada mau. Tem muito chiqueiro melhor que meu palácio real.

Esses animais #13
O bode bebê: bé-bé.

Esses animais #12
Um puro filme de terror, a aranha que tinha teias no interior.

Esses animais #10
Na hora de trocar de roupa, a cobra não tem escolha.

Esses animais #07
A lagartixa é um bicho assombrado, com cabeça movediça e rabo assustado.

Esses animais #02
A menor coisa mais rápida que existe é o coito de um nano coelho.







Últimas palavras
query_builder

Antes de morrer ou mesmo no último suspiro, é válido deixar algumas poucas palavras para as pessoas que vão continuar por aqui.

Compartilho algumas opções de frases para familiares e amigos discutirem qual colocar em minha lápide — sem brigas, por favor.

Caso falte chão para me enterrar e local para fixar as letras, peço que tudo seja jogado ao alto.

Maldição

Na pior das hipóteses, que essas frases lapidares se tornem piadas fúnebres.

Lápide #01

Silêncio, tenho o sono leve. ‪

Lápide #02

Como sou sensível. O peso só tinha uma tonelada, e me desmanchei todo.

Lápide #03

Era poeta. Teve ataque de suspiro.

Lápide #04

Deixei toda a esperança a vós que olhais.

Lápide #05

Eu pensava que tinha claustrofobia.

Lápide #06

Que nem coração de mãe.

Lápide #07

E vocês chamam isso de morte?







Ecce homo
query_builder

Quando o homem embebeda-se e acorda no outro dia com medo de si, é hora de ir mais devagar. Nunca se deve fazer surpresa em casa trancada por pesada porta.

* Ecce homo é uma frase em latim que significa “Eis o homem”.







Eles precisam escutar
query_builder

A sala estava lotada. A plateia ansiosa vendo os médiuns amuados na mesa branca. O pipoqueiro, na porta de entrada, gritava: “Aqui só não compra quem já morreu”. Ele tinha presença de espírito.







Deus, Ciência e Fábio Jr
query_builder

Estava eu tomando banho com minha filha, quando surgiu a temida pergunta: “Pai, como o mundo surgiu”? A resposta foi rápida, para não mostrar minha inaptidão em responder questionamentos profundos. “Existem três teorias. 1) O mundo surgiu por vontade de Deus; 2) Por uma explosão, que a Ciência chama de Big Bang; 3) Com o nascimento do Fábio Jr”.

Ela não se interessou pelas duas primeiras hipóteses. Queria saber quem era Fábio Jr. Disse, sem medo de errar, que é o cara mais sensível e perseverante que conheço. Acredito que Deus seja assim. Também creio que o Big Bang não tenha sido diferente.

Ele – o Princípio, o Meio e o Fim – tem um coração e tanto e uma perseverança maior ainda. Ele – Aquele que tudo fez – só pode ser um Ser absoluto, para nos criar e suportar desde então.

O Big Bang também. Não deve ter sido fácil juntar toda aquela energia para dar um pipoco e, do nada, ir criando, aos poucos, tudo o que a gente conhece hoje. Da primeira vez, certamente, deve ter sido um traque ridículo. Mas foi no trabalho árduo e persistente que, num belo dia – é só expressão, não existia dia – um estouro danado deixou muitos ouvidos siderais magoados e começou, grão a grão, tal qual galinha, a criar o maior espetáculo da Terra – e a própria Terra e o restante dos planetas.

Agora, o Fábio Jr é uma coisa inexplicável, ele canta “Pai” há 40 anos e, toda vez, é uma criação, uma nova música, um Big Bang, um fiat lux que não se acaba. Em 1978, o cantor tinha 25 anos, quando deu ao público a obra mais pungente que um filho pode criar. A.P (antes de Pai), Fábio juntou forças, com sensibilidade e determinação para, na hora certa, explodir numa cosmogonia, numa teologia perfeita.

Expliquei à minha filha que, mesmo confuso, o mundo não surgiu em 1978, mas em 1953, com o nascimento dele, daquele que compôs “Pai”. Jr, se assim podemos chamar homem tão grande com apenas duas letras, deu um novo significado à vida, criou o mundo dentro do mundo – é preciso muito amor para isso.

– Se ao deitar — disse à pequena que estava debaixo do chuveiro –, você ouvir um trecho sequer dessa música, o mais simples que seja, entenderá o porquê de as igrejas passarem por uma crise tremenda e os shows de Fábio Jr continuarem abarrotados de gente, mesmo tendo como carro chefe uma música que, há 40 anos, repete o mesmo estribilho.

Ela jogou água no meu rosto, começou a rir e disse: “Pai, não entendi nada”. Eu comecei a chorar, eu não sou o Fábio Jr. Criei o caos quando, simplesmente, poderia dar apenas o play. Mas, segundos depois, minha filha resolveu o problema: “Pai, rápido, lava o rosto, entrou sabão no seu olho”.

Não saberia explicar o que senti, nem usando Deus, Ciência ou Fábio Jr.







Felipe, sobe para comer paçoca
query_builder

Quando estou em casa, não gosto muito de sair da cama. Mas por uma força que vou ficar devendo explicação, às vezes, sou levado à janela, com ou sem vontade de fumar, só para ficar olhando o tempo mesmo.

Das coisas boas dessas saídas raras da cama, ouvi uma mãe gritando da janela do apartamento para o filho que estava brincando na quadra do prédio: “Felipe, sobe para comer paçoca”. Isso devia ser umas 19h.  Ou seja, quando o garoto atendesse a mãe, certamente, seria para jantar. E a comida eu já sabia qual era.

Lembro que, quando criança, minha mãe também gritava por mim, mandando que eu subisse. Elas são sempre assim. Se estamos em cima, querem que deixemos de perturbar e brinquemos um pouco com os amigos. Se embaixo, gritam nos chamando. Doidivanas, loucas maravilhosas, ninguém as entende, MAS as compreende muito bem.

Eu gosto de paçoca, o Felipe também. “Tá bom, mãe, tô subindo”, disse em resposta sem fio, em alto e bom som. Se ele não gostasse da iguaria, certamente, soltaria um “subo já” – clássico dribla mãe.

A minha querida mamãe sabe que odeio frango. Caso soltasse: “Sobe, Raphael, tem galeto”, eu, com toda dor no coração, diria “subo já”. Quando chegasse em casa, daria uma desculpa qualquer, comeria uma bolacha que fosse e iria dormir com fome, mas satisfeito por não ter traçado o frango.

Felipe subiu na hora, não ouvi mais a mãe chamá-lo. Pela rapidez e empolgação do grito, a paçoca devia ser daquelas feitas no dia, com a carne de panela que sobrou do almoço, batida no liquidificador com cebola roxa, um pouco de cheiro verde e farinha branca. Ela fica úmida. Foi um jantar e tanto. Vai ver não tinha nem acompanhamento – e nem precisava.

Sou mais para calado do que falastrão. Mas quando ouvi “Felipe, sobe para comer paçoca”, deu uma vontade danada de gritar: “Sobe não, Felipe, fica brincando na quadra mesmo, deixa que eu assumo o compromisso”.







Alguém já ouviu falar sobre haicai?
query_builder

O haicai é um poeminha de origem japonesa, que se distingue por ter três versos. Eu, aqui, vez por outra, postarei uns estalos que escrevo, com um toque oriental lá longe.

Originalmente, os haicais não têm título, nem rima. Quando chegou ao Brasil, principalmente com Guilherme de Almeida, a estrutura pegou uma cor que é só nossa.

Durante algum tempo, usei título e rima nos meus. Atualmente, deixei título de lado e continuo com as rimas. Mas nem sempre.

 

Pergunta solar.
Esse brancão que vejo,
é só de olhar?

-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-

continue a contar
os grãos de areia
e as gotas do mar

 







Cinco pequenos textos, cinco grandes espantos
query_builder

Abaixo, você confere o poder da reflexão sem compromisso.

 

Dia de praia

Olhei para o espelho e disse oi. Ele me respondeu.

– Oi também, sumido.

Dei-me conta de que não era mais um vampiro.

-=*=-=*=-=*=-=*=-=*=-

O diálogo

Um estudante perguntou para outro na fila do teatro. Os dois estavam matando aula.

– E Medeia tem acento?
– Não.
– Tem sim – disse o funcionário da bilheteria.

O bate-boca durou até o início da tragédia.

-=*=-=*=-=*=-=*=-=*=-

Pulada de cerca

– Escuta, Coração, o Bumbo é seu meio-irmão.

-=*=-=*=-=*=-=*=-=*=-

Preferia sim

Trocou o luto. Vestiu branco e saiu manchando-se em todas as esquinas.

-=*=-=*=-=*=-=*=-=*=-

Pizza, filosofia em oito pedaços

Azeitona é frutinha ambivalente. Ataca o sorriso, começando pelo dente.