Sete dias da semana sem medo da notícia

Silêncio
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O mundo está repleto de tudo, só não de silêncio — foi o que eu disse na crônica passada. Prometi voltar ao tema. Cumpro aqui a palavra. O mais engraçado disso tudo é que vou tratar de um assunto que era melhor ficar calado. Dessas contradições, a vida está repleta, e temos de encará-las sem medo, sob pena de começarmos a perder aos poucos a voz interna. Silêncio é uma coisa, mutismo é outra.

Silêncio é saber que mesmo com todas as ideias, informações e impropérios que existem, optamos por não usá-los. É isso que acontece quando engolimos sapo, resolvemos deixar para lá ou decidimos contar até dez. De forma bem direta, silêncio é tomada de decisão; mutismo é simplesmente imposição.

Entre dizer e não dizer, existe um milhão de forças (internas e externas). As internas são aquelas que, depois de assimiladas, somos mais influenciados a usá-las como balizas. Depende sempre da formação que tivemos ou subvertemos. As externas são impostas mesmo, é o poder de fato — bruto, sem dó nem piedade. Ou faz ou faz. Não tem discussão.

Silêncio é quando a pessoa amada pergunta se está falando demais e nós damos apenas um sorriso. O amor e a educação não permitem que firamos nossas esposas, nossos maridos. É tudo voluntário. O mutismo não. Mesmo que queiramos falar, não podemos, como no momento em que uma arma está apontada em nossa cabeça e o bandido pede para que não demos um pio.

Silêncio é bom, mutismo não. Quando um político fala besteira, ele podia ter ficado calado, mas optou por soltar mais uma das suas. Diriam os mais sábios que a palavra é prata, o silêncio é ouro. Ganha o eleitor mais atento, perde a legenda mais sebenta.

Quando uma mulher ou um homem são violentados sexualmente e ficam congelados por não saber como agir em situação tão irracional, é mutismo.

Mesmo que o mundo não esteja repleto de silêncio – seria bom –, não é isso que importa. É urgente combater a falta de voz que vai além de um problema físico. É uma questão, em última instância, de tato. E só sabe quem sente o peso da mão sobre si.







A histeria da fake news
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Fake news é notícia falsa em inglês. Eu, que reporto e leio notícias, observo a propagação dessa velha ideia como sendo algo novo. Sempre existiu notícia falsa, sempre existirá. Como sempre vai haver matéria bem apurado e mal apurada. Não diferente, leitores e leitores. O que mudou foi a escala. O mundo está repleto de tudo, só não de silêncio. Mas essa questão fica para outro texto.

Na histeria da fake news, tudo é falso em ano eleitoral. Tudo que não favoreça o candidato. Se a Folha informa que Bolsonaro juntamente com os filhos ficaram milionários basicamente com a política: é falso. Se Ciro aparece em uma lista de propina da Odebrecht com o apelido “Sardinha”, mesmo a matéria informando que não houve comprovação de repasses: é falso.

Só é verdadeiro, para a militância mais afoita, o que beneficia o candidato, seja qual for a coloração partidária. Autocrítica e a coragem de assumir os erros e deslizes não existem. E são justamente essas pessoas que infestam as redes sociais dos veículos de comunicação: jornal impresso, rádio, TV ou portal de notícia.

Militância em Ambientes Virtuais (MAV) é como o PT chama esse pessoal. Em outros partidos, deve ser semelhante. Basta entrar nas redes sociais de qualquer veículo de comunicação e ler os comentários nas matérias negativas sobre candidatos que concorrem à Presidência da República, Governo, Senado, Câmara dos Deputados ou Assembleia. Lá estão aqueles que são pagos para denegrir a empresa e exaltar o chefe político.

Eles não querem saber se existem provas mostrando que seus queridinhos estão envolvidos nas mais cabeludas irregularidades. Quanto maior o pepino, maior a defesa. Vão para cima sem pena, como aqueles fanáticos de seita apocalíptica, que acreditam piamente no fim do mundo em determinada data, mas o Armagedom não vem. Depois disso, aí é que eles passam a exaltar mais ainda o grupo.

Se o fim do mundo não pintou, é porque eles não estavam preparados. Então é preciso mais recato, mais oração e mais penitência. A mesma coisa acontece com a militância afoita. Apareceu ilegalidade do candidato imaculado? É porque faltou defesa, mostrar quem ele realmente é. Não a caricatura pela qual a matéria quer que ele fique conhecido.

O Apocalipse está para a fake news como os fanáticos estão para as MAVs. Quando o fim do mundo e as notícias falsas estiverem cara a cara com eles, não vão conseguir perceber. Fantasiaram tanto, que perderam o senso da realidade.







Virtuoso silêncio do falastrão
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Tem gente que é boa de lábia. Justamente por isso, morre pela boca. Ciro Gomes é um exemplo clássico. Todos os seus adversários sabem. Lula mesmo – que nem é um antagonista dos mais ferrenhos –, no ano passado, por duas vezes, fez questão de lembrá-lo disso. Não transcrevo aqui as alfinetadas ipsis litteris, mas de lembrança: 1) Candidato tilápia; 2) Nem toda besteira que a gente pensa, a gente diz. As duas deixas do petista mostram por que ele chegou ao Planalto, e Ciro não.

Em matéria da Folha, o FG tem o nome ligado ao apelido “Sardinha” em uma lista de pagamento de propina da Odebrecht. O jornal deixou claro que não há informações sobre repasses ao codinome. Se recebeu ou não, a questão aqui é sem importância. O que vale mesmo é a alcunha “Sardinha”. Caricatura muito boa. Por sinal, a empreiteira é competente em dar nome aos bois.

Sardinha é peixe pequeno, como a campanha do presidenciável do PDT, que ainda não decolou. Ela é levada para o fundo do mar na rede de arrasto que é o PT, PSDB e MDB. E Ciro não ajuda muito para que a danada engrene. Se a Folha o ataca, ele dá uma resposta chocha, sem firmeza e convicção. A única coisa que faz é tentar intimidar com processo quem quer que propague a informação enlatada.

Ciro já foi melhor de refutação, já foi “more presidential”. É tanto que, por não se defender a contento do apelido “Sardinha”, o peixinho entrou na cabeça de todo mundo e faz a festa nas redes sociais. Basta conferir os comentários nas postagens mais recentes no Facebook do FG. Um verdadeiro Festival da Sardinha.

Quando é para falar, Ciro fica calado. Na hora de fechar o bico, dispara sua metralhadora cheia de mágoas. No caso da lista da Odebrecht, optou pelo silêncio para se mostrar superior. Quem é falastrão, peca ao se calar diante de acusações. Parece que não tem argumentos para rebater o que foi dito.

Um candidato para chegar ao Planalto precisa ter duas ferramentas afiadíssimas sempre preparadas: o timing e uma contradição para chamar de sua. Nesta, ele é tubarão. Naquela, sardinha.







A tediosa lei da sobrevivência
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Quatro entre três perguntas feitas a políticos são sobre alianças nas Eleições 2018. Eles desconversam, fazem balanço da gestão, seja no Executivo ou Legislativo, e terminam desejando um próspero ano novo. “Acordão, união etc. só quando chegar mais próximo, porque agora não é hora para isso, que ainda existe muito a ser feito até o momento do eleitor escolher na urna quem sobe e quem cai”, dizem.

O discurso é padrão, mas é mentira. Alianças e toda sorte de bijuterias são negociadas neste finzinho de 2017.

Eles pensam que nos enganam, querem sobreviver em 2018. Precisam ver como as coisas vão se desenrolar até lá, mas já têm planos A, B, C, D, E, FG… O que desejam mesmo é o poder, independente de coerência, ideologia ou palavras dadas. Dinheiro não é mais o caso, ou porque nunca quiseram ou porque sempre tiveram. Importa é a influência, a possibilidade de articular, de ajudar quem eles acham que precisa de auxílio – geralmente, gente crescida e com dinheiro para resolver os próprios problemas.

Os eleitores mais atentos percebem o que está acontecendo, chegam a mangar dos políticos, a debochar, a fazer as piadas mais infames. Enquanto isso, as excelências continuam se enganando. Vivem num mundo paralelo, a Poderlândia, em que é possível dizer o que não se acredita e de batalhar por algo que não é de interesse da maioria.

Alianças, conchavos e acordões são comuns na política. É ponto pacífico. Falta aos candidatos de 2018 mais malícia. Se tudo fosse colocado em pratos limpos logo de primeira, sem demora ou joguinhos previsíveis, sobraria mais tensão para o desenrolar dos próximo capítulos. É o segredo das novelas e séries. Ninguém guarda clímax, sob pena de levar a história em banho maria num eterno anticlímax. No final, sobra a decepção do público, que havia vislumbrado o ponto alto no começo e não teve nenhuma surpresa.

O jogo que os políticos estão fazendo agora parece muito com um mau roteiro: sabemos tudo desde o início, mas os atores continuam levando sem a mínima graça o pastelão para frente. De um olhar de relance, é possível perceber de primeira quem são os vilões, os mocinhos e os trapaceados – e, lógico, toda a sucessão de acontecimentos.

É preciso urgentemente um novo enredo para 2018. Do contrário, terá muita gente dormindo nas urnas.







A Júlia e o “Todo dia é dia de Natal”
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Minha filha disse que quando crescer vai ter um restaurante com o nome “Todo dia é dia de Natal”. Será um sucesso. Clima ameno, conversas familiares, comida boa e aquela sensação de tudo o que poderia ter sido e foi, ou foi mais.

Júlia tem cinco anos e sonha em ser cozinheira — pelo menos esse é um dos sonhos. Gosta de meter a mão na massa mesmo, não tem frescura. Diferente de mim quando tinha a idade dela. Eu só via TV e comia biscoito. Ela quer fazer as histórias da tevê e os biscoitos. Diferente de mim, melhor do que eu.

Quando eu era criança e pensava no Natal, vinha à mente a imagem do meu avô vestido de Papai Noel — estava mais para Vovô Índio, mais pela descendência do que pela inclinação política. Eu achava muito engraçado, porque ele era desengonçado e sempre estava com uma ou duas doses de cachaça a mais na barriga, que era pequena ainda, bem menor que a do bom e sóbrio velhinho de hoje.

Lembro pouca coisa do Natal. Nunca me empolguei com datas festivas. Nenhuma. Diferente da Júlia, que comemora até corte de unha. Ela vê beleza onde existe beleza: em tudo. Tem um olhar endomingado permanente. Eu sempre fui cinzento e ranzinza. Ela é melhor do que eu.

Minha filha realmente acredita que todo dia seja dia de clima ameno, conversas familiares, comida boa e aquela sensação de tudo o que poderia ter sido e foi, ou foi mais. Isso não é uma característica só da Júlia. Milhares de pessoas são assim.

Tem gente que nasce assim e permanece assim. Tem gente que aprende a ser assim. Tem gente que não tem jeito. Meu caso.

Mas eu acho que as coisas estão mudando, talvez tenha sido a crise da idade que me abriu os olhos. Ou os olhos da minha filha que encontrei nos meus. Tenho estado menos cinza, mais endomingado.

Talvez seja sócio na empreitada “Todo dia é dia de Natal”. Júlia vai crescer. Acredito que ela é das pessoas que nasceram lindas e vão morrer lindas. Caso haja um acidente de percurso, há sempre alguma coisa que entra nos nossos olhos e nos muda o ponto de vista: um filho, um amor, uma crença, um negócio.

Só espero que as pessoas não deixem para ir ao restaurante da minha filha — já disse que vou ser sócio — apenas no final do ano. Aí não tem quem aguente, com ou sem crise.







Fé, política e um monte de coisa que a gente nem percebe
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Ciro Gomes disse nesta semana — em tom de brincadeira — que a solução para o País já foi dada e veio de Juazeiro do Norte. “Como o Padre Cícero, vamos dizer: quem matou não mate mais, quem roubou não roube mais e vamos começar do zero”. A ideia do presidenciável é criar uma quinta República, caso eleito seja. Não sei para vocês, mas a proposta me soa um tanto messiânica, talvez porque me faça lembrar do sebastianismo e do quinto império.

Dom Sebastião, aquele rei português que sumiu na batalha de Alcácer-Quibir, virou uma lenda. Por não o terem encontrado morto, depois do combate, o homem tomou ares de deus. Diziam que ele iria voltar e instaurar o Céu na Terra (pelo menos para o escritor Fernando Pessoa), tomando Portugal como centro difusor.

Ciro age como novo messias ao propor a quinta República, que viria por suas mãos, por sua regência no presidencialismo. A frase usada em tom de brincadeira, parafraseando Padre Cícero, é de uma seriedade espantosa. Ela não defende a impunidade. Se errou, que arque com as consequências, só não continue pisando na bola. A argumentação é baseada na máxima cristã de odiar o pecado e amar o pecador.

Um político qualquer, o ex-governador Cid Gomes, por exemplo, pode até ter recebido propina da JBS, como delatou o empresário Wesley Batista, mas não se beneficiará mais disso na quinta República de Ciro, seu irmão. Isso não implica que ele vá se livrar da punição, caso seja provado o embolso de dinheiro irregular. Porque começar do zero não é o mesmo de esquecer-se do que foi praticado. Até porque para zerar é preciso ter acontecido algo antes.

E na quinta República de Ciro, a Justiça vai ser rápida, porque boa. Cid, no íntimo, deve torcer para que uma nova era não tenha início em 2019.

“Perdoem, e ainda que as nossas paixões não queiram perdoar, perdoem. (…) É preciso para nos salvar que perdoemos aos que nos ofendem”, dirá Ciro Gomes, citando Padre Cícero, aos seus irmãos num hipotético recebimento da faixa presidencial de Michel Temer.







Uma modesta proposta para os homicídios do Ceará
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O público deste portal acompanha a contagem diária do número de homicídios no Ceará. Já são mais de 4.800, de janeiro até agora. São muitos mortos. Mortos demais. Um problema grande para o Governo, uma angústia enorme para a população.

Talvez, por isso, tenha me lembrado do texto de Swift, em que lança uma modesta proposta de acabar com excesso de crianças pobres na Irlanda. O escritor anglo-irlandês sugere que elas sejam comidas. Lógico, é uma sátira. Ele mete o dedo na ferida escancaradamente para que alguém se sensibilize e resolva o problema.

Darei uma de Swift, proponho que comamos os nossos mortos. São todos cearenses — senão de alma, de corpo. A Secretaria de Segurança garante que o número alarmante é em decorrência da Guerra de Facções. Pode ser, mas não justifica. São mais de 4.800 mortes.

O discurso oficial parece dizer que, por serem marginais, suas vidas valham menos. Homicídio é morte matada, e não morte morrida. É crime. E se o Estado tem o monopólio no combate ao crime, falha ao não realizá-lo.

Voltando à proposta de comer os nossos mortos, sugiro que optemos pela carne moída. Rende um absurdo. Aqui em casa mesmo, comprei 600 gramas de acém dia desses. Fiz com cenoura e batata, quase não acabava mais. Eu, minha mulher e filha comemos no almoço e jantar: sobrou. Ainda deu para colocar no pão do café da manhã.

Num futuro próximo, se minha proposta for aceita, essa comilança será comum em todas as casas. Quanto maior a oferta, menor o preço. É o mercado. Caso já estivéssemos comercializando carne vinda de homicídios, tomando por baixo que cada corpo pese 50 quilos, teríamos 240 toneladas no solo cearense.

Se o escritor gringo propôs comer crianças pobres por serem um estorvo para a Irlanda de então, defendo a ingestão de proteína humana de assassinato para o Ceará de agora.

O problema da fome seria solucionado. O do homicídio, legitimado. Com as mortes matadas fora das costas do Estado, as autoridades poderiam ficar focadas apenas nas eleições do próximo ano. De quebra, o Ceará se tornaria referência no novo mercado de carne. A JBS perderia feio.